Excesso de peso e diabetes 2 avançam em ritmo acelerado e, em 27 anos, podem acometer, respectivamente, 30% e 12,5% da população mundial. Estudo alerta ainda sobre a urgência de adoção de programas mais efetivos contra as duas doenças

Em menos de três décadas, um quarto da população mundial terá obesidade e uma em cada oito pessoas sofrerá de diabetes 2. A previsão é de um estudo apresentado ontem pela Universidade College London e pelo Centro de Diabetes Steno, da Fundação Novo Nordisk, no Congresso Europeu de Obesidade, em Viena. De acordo com os autores, esse será o cenário global caso a tendência atual de avanço do excesso de peso se mantenha.

Nos cálculos dos especialistas, se nada for feito para parar essa curva ascendente, daqui a 27 anos, o número de pessoas com índice de massa corporal (IMC) acima de 30 estará 14% maior em relação a 2017, e a quantidade de pacientes com diabetes 2 sofrerá aumento de 9%. Hoje, tanto a obesidade quanto a doença crônica, caracterizada pela não produção ou dificuldade de fabricação de insulina, já são consideradas epidemias: 650 milhões de pessoas estão com o peso acima do considerado saudável, enquanto 425 milhões têm diabetes 2, condição responsável por 12% dos gastos globais com saúde pública.

Para chegar à previsão, os pesquisadores utilizaram os dados de 2000 a 2014 da Organização Mundial da Saúde (OMS), que tem informações sobre todos os membros das Nações Unidas. A população dos países foi dividida em dois grupos etários, que, por sua vez, foram subdivididos em categorias de IMC. Esse índice, calculado pelo peso em quilos dividido pela altura ao quadrado, considera que o indivíduo tem sobrepeso quando está entre 25-29,9kg/m²; obesidade I, de 30 a 34,9kg/m²; obesidade II, de 35 a 40kg/m²; e obesidade III, acima de 40kg/m².

Pesquisadores defendem que existem cinco tipos de diabetes

A partir das estatísticas da Federação Internacional de Diabetes, os especialistas calcularam a prevalência de obesidade e diabetes II, concluindo que, para evitar a explosão de casos das duas condições, é preciso reduzir em 25% o número de pessoas com excesso de peso até 2045.

Além dos dados globais, os pesquisadores apresentaram dados específicos de oito países — China, Canadá, Dinamarca, Itália, Reino Unido, Estados Unidos, África do Sul e México — que, de acordo com eles, são representativos da população mundial. O cenário norte-americano é o mais alarmante. Se nada for feito, daqui a 27 anos, 54% dos habitantes do país estarão com obesidade (hoje, esse índice é 38,5%), e 17,6% terão diabetes (atualmente, são 14,4%).

Dos países em desenvolvimento, o México é o mais problemático: a estimativa é de obesidade em 2045 é de 47,1%, e de diabetes, de 15,4% (atualmente, os percentuais são, respectivamente, 30,6% e 10,5%). O trabalho apresentado não destaca os números brasileiros, mas, segundo o Ministério da Saúde, a obesidade avançou 60% entre 2006 e 2016, com 18,9% da população apresentando IMC acima de 30. Ao mesmo tempo, os diagnósticos de diabetes 2 aumentaram de 5,5% para 8,9% no período, de acordo com a Pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel).

Basta o sobrepeso

A endocrinologista Cristiane Moulin, médica da clínica Metasense e secretária executiva da regional DF da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem-DF), explica que, hoje, já se fala em epidemia de diabesidade, termo cunhado para explicitar a forte associação entre os dois problemas. “Um dos principais fatores de risco de diabetes 2 é o excesso de peso”, diz.

Segundo ela, nem é preciso estar obeso: o sobrepeso é suficiente para desencadear alterações metabólicas sérias que podem levar ao desenvolvimento da doença crônica. Mais de 80% dos pacientes de diabetes, diz a médica, estão com sobrepeso, não com obesidade. “Mas o risco aumenta exponencialmente, de acordo com o grau de obesidade”, complementa.

Cristiane Moulin esclarece que são muitas as vias que fazem com que a gordura corporal em excesso contribua para aumentar o risco de diabetes, incluindo a falência das células beta no pâncreas sobrecarregado por tecido adiposo e a perda de capacidade do fígado de metabolizar o ácido graxo, quando há gordura visceral, aumentando a resistência do organismo à insulina.

Embora o diabetes tenha um componente genético, a secretária executiva da Sbem-DF esclarece que essas associações ocorrem independentemente de predisposição. O contrário também é verdade: quando se perde peso por meio de mudanças dos hábitos alimentares e de exercícios físicos, o risco de desenvolvimento da doença é reduzido, e mesmo quem já está com a condição instalada tem melhora de vários processos metabólicos alterados pelo diabetes e pela obesidade.

Desafio global

“Esses números destacam o desafio impressionante que o mundo enfrentará no futuro em termos de quantidades de pessoas que são obesas, ou têm diabetes tipo 2, ou ambos. Além dos desafios médicos que essas pessoas enfrentarão, os custos para os sistemas de saúde serão enormes”, disse, em nota, o principal autor do trabalho, Alan Moses, da Fundação Novo Nordisk. “Prevemos que a prevalência global de obesidade e diabetes aumente drasticamente, a menos que a prevenção da obesidade seja significativamente intensificada. O desenvolvimento de programas globais efetivos para reduzir a obesidade é a melhor oportunidade para retardar ou estabilizar a prevalência insustentável do diabetes. O primeiro passo deve ser o reconhecimento do desafio que a obesidade representa, e a mobilização de serviços sociais e de recursos de prevenção para retardar a progressão dessas duas condições”, observou.

A endocrionologista Cristiane Moulin concorda que o trabalho não é fácil, especialmente quando o excesso de peso já está instalado. “A luta é muito grande, e o mais fácil é tratar da prevenção, evitando que as pessoas evoluam para sobrepeso e obesidade. Uma vez que elas evoluam, conseguir emagrecer e se manter magro é mais difícil, embora não seja impossível”, diz. Para a médica, em termos de saúde pública, é preciso investir recursos no tratamento dessas pessoas, pois os custos com as comorbidades da obesidade, que vão além do diabetes, são ainda mais altos.

Por Paloma Oliveto

Fonte: Correio Braziliense (Ciência e Saúde)

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